Selic em 10,5% anima mercado e decepciona setor produtivo; entenda

Por Mariana Carvalho - Rio Janeiro

Publicado há 2 anos ago

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Após sete cortes consecutivos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil decidiu nesta quarta-feira (19) interromper o ciclo de reduções da taxa básica de juros, a Selic, mantendo-a inalterada em 10,50% ao ano. A decisão, aguardada pelo mercado, indica uma mudança nas perspectivas para 2024, com previsão de juros mais altos comparado ao início do ano.

A unanimidade na decisão foi um destaque importante. Todos os diretores do Copom e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, votaram pela manutenção da Selic, em meio a críticas do presidente Lula. Na reunião anterior, em 8 de maio, houve divisão de votos: diretores antigos propuseram um corte de 0,25 ponto percentual, enquanto os novos indicados por Lula preferiram um corte maior, de 0,50 ponto. O voto decisivo foi de Campos Neto, resultando no corte de 0,25 ponto.

O mercado estava preocupado com a possibilidade de uma política monetária mais flexível com a entrada dos novos diretores, alinhados às expectativas do governo. Por isso, a decisão unânime e mais conservadora do Copom trouxe alívio aos investidores.

Repercussão no Mercado e Análise de Especialistas

Em nota, o banco Itaú elogiou a decisão, classificando-a como “esperada”. “Em nossa visão, esta decisão e comunicado de livro-texto, apoiadas de forma unânime por membros do Copom, deverão ajudar a restaurar a confiança no compromisso do comitê com a meta de inflação, que, certo ou errado, tinha aparentemente sido prejudicada pelo dissenso anterior”, diz o documento.

Marcelo Bolzan, planejador financeiro e sócio da The Hill Capital, ressaltou que as falas do presidente Lula contra o Banco Central e o presidente da autoridade monetária, Campos Neto, deixaram o mercado ainda mais preocupado com a decisão desta quarta-feira (19). No entanto, a unanimidade da decisão deve acalmar os ânimos do mercado.

“Depois dos ruídos causados na última reunião pela decisão dividida, dessa vez o colegiado chegou a um consenso. Os 9 diretores votaram de forma igual. Acredito que isso foi muito importante para reforçar que as decisões foram tomadas de forma técnica e não com interferência política e assim eliminar qualquer dúvida sobre a credibilidade da política monetária”, afirmou Bolzan.

Reações do Setor Produtivo

A decisão do Copom gerou controvérsias, especialmente entre os setores produtivos representados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para a CNI, a manutenção da Selic nesse patamar é excessivamente conservadora e inadequada diante do cenário econômico atual.

“A manutenção do ritmo de corte na Selic seria o correto, pois contribuiria para mitigar o custo financeiro suportado pelas empresas e pelos consumidores, sem prejudicar o controle da inflação”, defendeu o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Com a Selic mantida em 10,5%, a taxa de juros real no Brasil fica significativamente acima da taxa neutra estimada pelo Banco Central, indicando uma postura contracionista que pode prejudicar a atividade econômica. Atualmente, a taxa de juros real brasileira é a segunda mais alta do mundo, reforçando as preocupações com o impacto sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Previsões apontam que o crescimento econômico para 2024 será modesto, com expectativas de desempenho abaixo da média dos países em desenvolvimento, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para o presidente do Sebrae, Décio Lima, a manutenção da Selic em níveis elevados, apesar da inflação anual estar abaixo de 4%, é irracional e prejudica tanto o governo na tentativa de recuperar a economia quanto os consumidores e empresas, especialmente os micro e pequenos negócios. Ele critica a política do Banco Central, afirmando que a taxa de juros elevada beneficia principalmente os rentistas, tornando o crédito mais caro e dificultando o acesso ao financiamento para metade das pequenas empresas, cuja taxa média de juros chega a 40%.

Em resposta à falta de acessibilidade ao crédito, o Sebrae tem atuado em parceria com o governo federal no programa Acredita, que já concedeu R$ 1 bilhão em crédito por meio do Fundo de Aval para Micro e Pequena Empresa (Fampe). Este fundo, com aporte significativo do Sebrae, visa viabilizar até R$ 30 bilhões em crédito nos próximos três anos, beneficiando milhares de empreendedores e fortalecendo o setor de micro e pequenas empresas no Brasil.

Expectativas Futuras

“Na minha opinião, o mercado vai receber bem a decisão e o comunicado. Amanhã devemos observar queda no dólar e nos juros futuros, enquanto que a bolsa deve abrir em alta refletindo maior otimismo com a política monetária”, diz Bolzan.

Apesar das críticas e preocupações, a decisão do Copom de manter a Selic inalterada traz um sinal claro de compromisso com a estabilidade econômica e o controle da inflação, sendo bem recebida por investidores, mas questionada pelos setores produtivos que esperavam medidas mais favoráveis ao crescimento econômico.

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Por Mariana Carvalho - Rio Janeiro

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