A recusa em comprar farinha de um fornecedor imposto por criminosos teria custado a vida do comerciante Rafael Oliveira Braga, assassinado em março do ano passado na porta de sua padaria na Zona Oeste do Rio. Segundo a Polícia Civil, dois homens apontados como integrantes da milícia foram indiciados pelo crime. O caso é citado por investigadores como um dos exemplos mais graves da violência usada para garantir o controle da venda de mercadorias em comunidades dominadas por grupos criminosos.
O assassinato de Rafael integra um esquema mais amplo, que mostra como milícias e facções transformaram produtos básicos em fonte de arrecadação. Proprietários de padarias relatam que perderam a liberdade de escolher fornecedores e passaram a ser obrigados a comprar farinha de distribuidoras determinadas pelos criminosos, muitas vezes em quantidades maiores do que as solicitadas e a preços mais altos por produtos de qualidade inferior. O custo extra acaba sendo repassado ao consumidor no preço do pão francês.
Quem tenta descumprir as regras enfrenta ameaças e retaliações. Muitos comerciantes evitam denunciar o esquema por medo. Além da farinha, as investigações apontam atuação criminosa na comercialização de frango assado, água, gás, hortifrúti e outros produtos essenciais. Segundo a polícia, os recursos arrecadados abastecem o chamado caixa de guerra das facções e milícias, usado para compra de armas e manutenção do domínio territorial.
Na última quarta-feira, a Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em endereços ligados às empresas investigadas. Em um dos depósitos, agentes encontraram produtos fora da validade e prenderam um homem em flagrante. Em outro local, foram identificadas condições precárias de armazenamento, com alimentos próximos a fezes de animais.
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