BRASÍLIA – O Banco Central deve decidir manter a taxa Selic em 10,5% ao ano de maneira unânime nesta quarta-feira, 31, mas é esperado que adote um tom mais rígido quanto à possibilidade de futuras elevações dos juros, caso o cenário econômico piore. Essas são as previsões predominantes no mercado financeiro, que analisará com atenção cada detalhe do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) após o fechamento dos mercados. A sinalização de que a Selic pode ser elevada em reuniões futuras pode, por um lado, acalmar o mercado e conter a valorização do dólar; mas, por outro, pode provocar novas críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à instituição.
Diretores ‘lulistas’ sob pressão
O discurso mais severo do Banco Central deve gerar uma nova onda de críticas do presidente Lula e de representantes do governo e do PT à autoridade monetária. A pressão será particularmente intensa sobre Gabriel Galípolo, atual diretor de política monetária e principal candidato para assumir a presidência do Banco Central após o término do mandato de Roberto Campos Neto, em dezembro deste ano.
Galípolo precisará demonstrar ao mercado que é capaz de resistir a essa pressão política; caso contrário, as expectativas de inflação podem se deteriorar ainda mais. Esse cenário pode desagradar o presidente Lula, que poderia considerar a nomeação de um substituto mais alinhado com suas posições. A partir de janeiro, o Banco Central contará com sete dos nove diretores indicados por Lula, o que representa uma maioria suficiente para influenciar as decisões sobre a Selic. O mercado vê essa composição como um risco, refletindo nas expectativas de inflação.
Dólar, inflação e atividade em alta
Desde a última reunião do Copom, em 19 de junho, quando a Selic foi mantida em 10,5% ao ano, as previsões para o IPCA de 2024 aumentaram de 3,96% para 4,10%. Para 2025, que é mais relevante para a decisão do Banco Central, as estimativas subiram de 3,84% para 3,95%. Esses números estão se afastando do centro da meta de 3%, o que exige uma resposta firme do Copom.
Para 2026, as previsões permanecem em 3,6%, e para os dois anos seguintes, em 3,5%. Apesar disso, essas previsões ainda estão “desancoradas”, como afirmam os economistas, ficando acima do centro da meta.
Nesse período, o dólar também se valorizou: saltou de R$ 5,42 em 19 de junho para R$ 5,61 nesta terça-feira, superando os R$ 5,30 utilizados pelo BC para suas projeções na última reunião. Desde o início do ano, quando estava a R$ 4,85, a valorização da moeda americana em relação ao real já chega a 15%, o que altera o cenário inflacionário.
Os indicadores de atividade, especialmente no mercado de trabalho, também têm mostrado sinais de aquecimento, o que pressiona os preços. Nesta terça-feira, o Ministério do Trabalho anunciou a criação de 201 mil vagas com carteira assinada em junho, superando as expectativas do mercado.
Tom mais firme, mas sem compromissos
De acordo com o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, em relatório para clientes, uma abordagem mais rigorosa do Copom pode se manifestar através de um “balanço de riscos”, destacando que o cenário inflacionário está pior do que o esperado. Mesquita acredita que a Selic precisaria ser elevada para pelo menos 11% para controlar as expectativas.
“Um sinal mais severo poderia ser um balanço de riscos assimétrico para cima, acompanhado pela afirmação de que o comitê não hesitará em retomar o ciclo de ajuste (aumento dos juros)”, afirmou.
Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe da Warren Investimentos, destaca que o desafio do Copom será encontrar o tom certo para demonstrar preocupação com a inflação sem se comprometer com um aumento iminente. Ele observa que o cenário é volátil e, assim como piorou, pode melhorar nas próximas semanas. “Consideramos que uma sinalização muito dura do Copom poderia ser precipitada e levar os analistas a preverem uma maior probabilidade de retomada do ciclo de alta dos juros na próxima reunião, fazendo com que o BC fique ‘refém’ do mercado”, disse. “Esperamos que o Comitê aguarde para ver como a taxa de câmbio se estabiliza antes de avaliar seus impactos sobre a inflação e as expectativas.”
Incertezas fiscais
O anúncio do governo de um congelamento de R$ 15 bilhões em despesas para o Orçamento de 2024 foi considerado um sinal positivo, mas insuficiente para restaurar a confiança na política fiscal. Economistas já antecipam a necessidade de novos cortes de gastos em setembro para cumprir o arcabouço fiscal e pelo menos o piso da meta fiscal zero – que permite um déficit de até R$ 28,8 bilhões.
Além disso, nesta semana, o Banco Central revelou que a dívida bruta do governo central subiu para 77,8% do PIB, o maior nível desde novembro de 2021.
As declarações do presidente Lula, que têm mostrado uma visão superficial sobre os riscos fiscais, também têm minado a confiança na agenda defendida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Antes da próxima reunião do Copom, em setembro, o governo terá que enviar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2025. Esse documento é visto como uma nova oportunidade para a equipe econômica propor medidas estruturais de cortes de despesas, mas o mercado permanece cético quanto a essa possibilidade.
Cenário externo: boas e más notícias
O cenário internacional se encaminha para o início dos cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) dos EUA em setembro. Após indicadores de inflação abaixo do esperado e dados mais fracos sobre atividade e mercado de trabalho, a maioria dos economistas acredita que essa será a direção a ser tomada.
O início dos cortes de juros deveria resultar em um ciclo de desvalorização do dólar e fortalecimento de moedas emergentes, como o real. No entanto, o Banco Central do Japão começou a sinalizar a possibilidade de aumentar seus juros, atraindo capital para o país e, consequentemente, depreciando moedas de países como o Brasil.
“Anteriormente, os investidores pegavam empréstimos no Japão a taxa zero e aplicavam em países com taxas mais altas. Agora, com o risco de alta, a atenção está voltada para as decisões do Banco Central do Japão”, afirmou o economista Luis Otávio Leal, do G5 Partners. “Quanto maiores forem os juros lá, maior a chance de reversão desses fluxos de capital, e, consequentemente, maiores são as chances de movimentos bruscos nas moedas ao redor do mundo, como vimos com o real e o peso mexicano recentemente.”
Além da reunião desta quarta-feira, o Banco Central se reunirá mais três vezes até dezembro com a atual diretoria. A partir de janeiro, a nova presidência deverá estar em vigor. O mercado espera que Lula anuncie o novo nome para o cargo o mais breve possível para reduzir as especulações sobre a futura liderança do Banco Central.
