A pré-campanha de Vantoil Martins a deputado estadual começou com um ativo político raro: o reconhecimento praticamente consolidado em sua principal base eleitoral, Iguaba Grande, onde o ex-prefeito é lembrado por aliados e parte expressiva da população como o gestor que “transformou” o município. Ainda assim, nos bastidores da política regional, a avaliação é de que a pré-candidatura não decolou no ritmo esperado pelo seu grupo político.
O principal obstáculo não está, necessariamente, na rejeição ao nome de Vantoil. Pelo contrário. Em Iguaba Grande, sua imagem segue fortemente associada a uma gestão bem avaliada, marcada por obras, reorganização administrativa e mudança de patamar político da cidade. O problema é outro: fora de Iguaba, Vantoil ainda precisa se tornar conhecido.
Esse é hoje o maior desafio da pré-campanha. Em uma eleição proporcional para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a força de um candidato não depende apenas da aprovação em sua cidade de origem. Depende, sobretudo, da capacidade de transformar reconhecimento local em voto regional, atravessando fronteiras municipais e chegando a eleitores que muitas vezes conhecem pouco ou nada sobre sua trajetória.
No caso de Vantoil, essa barreira é clara. Seu nome é forte em Iguaba Grande e tem alguma penetração em áreas próximas, especialmente em bairros de Araruama que fazem divisa com o município. Mas, em uma disputa estadual, esse raio de influência ainda é limitado. Mesmo em um cenário hipotético de votação quase total em Iguaba — algo improvável em qualquer eleição competitiva — o ex-prefeito ainda precisaria buscar uma quantidade expressiva de votos em outras cidades da Região dos Lagos e de outras partes do estado.
É nesse ponto que outras pré-candidaturas passaram a ocupar mais espaço no debate político regional. Nomes como Ana Paula Mendes, ex-apresentadora da InterTV; Dra. Gabriela Azevedo, médica e irmã do prefeito de Cabo Frio, Dr. Serginho; Daniele Martins, esposa do prefeito de Búzios; Thiago Moura, vereador em Araruama; e Pedro Ricardo, atual deputado estadual, largam com vantagens importantes em termos de conhecimento público, estrutura política ou mandato.
Ana Paula Mendes, por exemplo, entra na disputa com um capital de imagem construído ao longo de quase três décadas no jornalismo televisivo. Ex-apresentadora da InterTV, afiliada da Globo no interior do estado, ela tem um grau de familiaridade regional que ultrapassa os limites de Cabo Frio e alcança municípios onde sua presença na televisão ajudou a fixar nome e rosto junto ao público. Sua filiação ao PSD e a possibilidade de disputar uma vaga na Alerj foram noticiadas em abril, reforçando sua entrada no tabuleiro eleitoral de 2026.
Dra. Gabriela Azevedo também se movimenta em posição estratégica. Irmã do prefeito de Cabo Frio, Dr. Serginho, e filiada ao PL, ela assumiu a presidência do PL Mulher no município e passou a ser apontada como pré-candidata a deputada estadual. O evento de posse reuniu lideranças políticas e foi apresentado por veículos regionais como uma demonstração de força do grupo governista cabo-friense.
Em Araruama, Thiago Moura aparece como outro nome em ascensão. Vereador no município, ele ganhou destaque após levantamento divulgado em março apontá-lo à frente no cenário estimulado para deputado estadual em Araruama, com 20,2% das intenções de voto no recorte apresentado. O levantamento foi registrado no TSE sob o número BR-09922/2026, segundo publicação do CIC7 Notícias.
Já Pedro Ricardo, por ocupar mandato de deputado estadual, parte de uma condição diferente: tem a vantagem da visibilidade institucional, da estrutura de gabinete, da presença em agendas oficiais e do histórico de atuação parlamentar. Em disputas proporcionais, candidatos que já exercem mandato costumam ter maior facilidade para manter bases, acionar apoiadores e reforçar presença em municípios onde já possuem alianças.
Diante desse ambiente, Vantoil enfrenta uma contradição política relevante: tem uma história administrativa forte, mas ainda não conseguiu transformá-la em uma narrativa regional de amplo alcance. Para aliados, o ex-prefeito tem o que mostrar. Para adversários e analistas de bastidor, falta fazer essa história chegar a quem não viveu diretamente sua gestão.
A avaliação é que sua pré-campanha ainda está muito concentrada na memória positiva de Iguaba Grande. Esse capital é importante, mas insuficiente. A eleição para deputado estadual exige escala. Exige presença em cidades maiores, articulação com lideranças locais, construção de palanques, penetração em comunidades, produção de conteúdo constante e, acima de tudo, repetição de mensagem para que o eleitor associe nome, rosto e proposta.
O próprio movimento recente de Vantoil mostra uma tentativa de reagir a esse diagnóstico. No último sábado, dia 9 de maio, um encontro político em Iguaba Grande reuniu lideranças de diferentes municípios e foi apresentado como um ato de fortalecimento de sua pré-candidatura à Alerj. O evento, organizado pelo prefeito iguabense Fabio Costa, buscou dar musculatura regional ao projeto político do ex-prefeito.
Ainda assim, a percepção nos bastidores é que a pré-campanha de Vantoil foi ofuscada por movimentos de maior impacto visual e midiático, especialmente os de Ana Paula Mendes e Dra. Gabriela. Enquanto Ana Paula se beneficia de anos de exposição na televisão, Gabriela entra no jogo impulsionada por uma estrutura política robusta em Cabo Frio, maior cidade da Região dos Lagos e um dos colégios eleitorais mais importantes do interior fluminense.
Isso não significa que Vantoil esteja fora da disputa. Ao contrário. Sua trajetória como prefeito ainda é seu principal ativo, e a aprovação em Iguaba Grande pode funcionar como uma base sólida de largada. Mas, neste momento, o desafio é evidente: a pré-campanha precisa sair do território da aprovação local e entrar no campo do conhecimento regional.
Na prática, Vantoil precisa fazer com que o eleitor de Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Araruama, Búzios, Arraial do Cabo, Saquarema e outras cidades entenda quem ele é, o que fez em Iguaba Grande e por que sua experiência administrativa poderia representar a Região dos Lagos na Alerj.
A eleição de 2026 ainda está longe de ser decidida. A campanha oficial sequer começou, e o cenário pode mudar com alianças, pesquisas, tempo de rua, nominatas partidárias e apoios de peso. Mas, neste início de movimentação, a pré-campanha de Vantoil Martins acende um alerta interno: prestígio local, por maior que seja, não garante vitória regional.
Para transformar aprovação em voto, Vantoil terá que ampliar presença, disputar narrativa e vencer o obstáculo mais básico de qualquer eleição: ser conhecido antes de pedir confiança.
