Um publicitário de 45 anos, com laços familiares no alto escalão do futebol brasileiro, foi condenado por usar o universo das categorias de base para abordar crianças e adolescentes, exigir fotos e vídeos de nudez e masturbação em troca de pequenas quantias via Pix, lanches ou promessas de “ajuda na carreira”. Fábio Barreto Bueno Adamo já responde a duas denúncias graves. Em uma delas, foi sentenciado a um ano e dois meses de reclusão em regime aberto.
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A fala chocante registrada em conversas de WhatsApp resume o padrão: “Então faz um vídeo falando que me ama e aproveita e fica já sem camisa ai vejo o tanquinho ahaahah”. A mensagem, dirigida a um dos garotos, faz parte de um laudo pericial de 173 páginas que identificou pelo menos 24 conversas com meninos, a maioria jogadores de base do Palmeiras e de clubes do interior paulista. Em 11 delas, ele pediu explicitamente fotos ou vídeos das partes íntimas. Nas demais, fez comentários de cunho sexual pesado.
A primeira denúncia veio em 2019, quando a mãe de um menino de apenas 11 anos pegou o celular do filho e encontrou as mensagens. “Ele chorou muito quando me contou. Ficou com vergonha, achou que tinha feito algo de errado. Expliquei que não era culpa dele e fui direto fazer a denúncia”, relatou a mulher à reportagem do UOL, assinada pelos jornalistas Pedro Lopes e Camila Branda.
No celular de Adamo, peritos encontraram imagens de órgãos genitais de garotos e vídeos de masturbação. Ele oferecia R$ 20 via Pix, um Big Mac ou “ajuda para chegar ao profissional” em troca das imagens. Pedia para os meninos apagarem as conversas “porque os pais podem achar ruim” e insistia em chamadas de vídeo no banheiro.Em março de 2025, a Justiça condenou Adamo pelo crime de aliciar e assediar crianças por meio de comunicação. Ele recorreu em junho e o recurso ainda não foi julgado.
O Ministério Público alegou prescrição da pena, o que pode levar à extinção da punibilidade – ou seja, mesmo condenado, ele não cumpriria a pena na prática. Uma segunda denúncia, de 2023, feita por um pai e várias mães de atletas de um clube do interior, corre em segredo de Justiça. Ele foi indiciado em setembro de 2024.Adamo é cunhado do ex-jogador Edu Gaspar – ex-coordenador da Seleção Brasileira e atual diretor global de futebol do grupo dono do Nottingham Forest (Inglaterra) – e filho de Jorge Adamo, ex-diretor de futebol e ex-conselheiro do Palmeiras. Segundo as investigações, ele usava essas conexões para ganhar confiança dos garotos: tirava selfies, citava nomes importantes do meio e se apresentava como “coordenador” de torneios de base (a organização da Copa Buh esclareceu que ele era apenas funcionário eventual, pago por jogo).
No Palmeiras, onde frequentava a sede social e o campo society, transitava livremente entre os meninos da base. O clube informou que Adamo nunca teve cargo oficial nas categorias inferiores e que só tomou conhecimento da condenação pela reportagem. “Tomaremos as providências necessárias”, disse a assessoria.O pai de uma das vítimas de 2023, especialista em prevenção a abusos, resumiu o método: “Pegou os sonhos das crianças como isca para objetivos deploráveis”. Muitas famílias hesitam em denunciar por medo, vergonha ou pressão. Uma mãe contou que, ao registrar boletim de ocorrência, ouviu de um policial que era “piada de mau gosto”.
Psicólogos ouvidos pela reportagem destacam o “pacto de silêncio” que protege agressores em série: os meninos sentem vergonha, temem bullying ou questionamentos sobre sua sexualidade. “É mais um elemento que mostra o caráter perverso da situação”, avalia o psicólogo Denis Ferreira.Adamo não se manifestou. Seus advogados também não responderam aos contatos. Enquanto isso, ele continuou circulando por eventos de base até o fim de 2023, inclusive aparecendo em vídeos de torneios entrevistando atletas mirins.
O caso expõe uma realidade dura: segundo dados da Universidade de Washington e da ONU, um em cada oito meninos no Brasil sofre abuso sexual antes dos 18 anos. No futebol de base, o sonho de virar jogador muitas vezes se transforma em porta de entrada para predadores que se disfarçam de “tio do Pix” ou “amigo influente”.













