Uma herança milionária da família Bekerman, de origem israelense, está no centro de uma disputa por terras em Armação dos Búzios, na Região dos Lagos, que inclui denúncias de grilagem, milicianos armados e ameaças. O caso ganhou destaque neste domingo (7) em reportagem publicada pelo jornal O Globo.
Segundo a matéria, o empresário Anderson Gaspari, procurador legal do herdeiro Yaron Bekerman, chegou à cidade em 2021 com o objetivo de localizar e resguardar os 93 terrenos deixados por Amnon Bekerman, magnata do setor imobiliário, falecido em 2002. Após confirmar a titularidade dos terrenos junto ao cartório de Cabo Frio e à prefeitura, Gaspari deu início à construção de muros para cercar os lotes, localizados na Rua Flamboyant, no loteamento Praias Rasas.
No entanto, ainda durante a entrega dos materiais para a obra, o local foi invadido por homens armados que se apresentaram como donos da área. Segundo Gaspari, os indivíduos seriam milicianos e roubaram todo o material de construção, avaliado em R$ 178 mil. Ele também afirma ter sido ameaçado por telefone e desde então vive escondido, temendo pela própria segurança.
“Recebi uma ligação de um homem dizendo que eram os donos da cidade e estavam acima das instituições. Fiz o registro na delegacia e sigo aguardando uma solução”, relatou.
A disputa foi intensificada após a morte da irmã de Amnon, Ruth Bekerman, em 2022. Com isso, os sobrinhos Yaron e Sharon passaram a ser os herdeiros legais de um espólio estimado em mais de R$ 30 milhões, incluindo 240 lotes localizados entre Búzios e Cabo Frio.
De Tel Aviv, Yaron Bekerman afirmou que não compreende a lentidão do sistema brasileiro para resolver o caso. “Em Israel, se alguém tenta invadir suas terras, a polícia resolve. Mas aí é diferente. Eu disse ao Anderson: precisamos tirar esses bandidos, porque o que eles estão fazendo é contra a lei”, declarou.
O Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro investiga há pelo menos cinco anos a atuação de milícias em Búzios. O promotor Rafael Dopico explicou que a grilagem e a ocupação irregular vêm crescendo na região, impulsionadas pela valorização imobiliária, especialmente em áreas como a Praia Rasa.
Segundo ele, os milicianos invadem terrenos, cercam áreas, ameaçam os verdadeiros proprietários e até entram com ações judiciais para legitimar a ocupação, utilizando escritórios de advocacia como fachada.
Em dezembro de 2023, uma operação do Gaeco e da Polícia Civil resultou na prisão de sete pessoas acusadas de envolvimento com invasões de terras na Estrada da Fazendinha, em Búzios. Entre os investigados, está Esmeraldo da Conceição, apontado como líder do grupo, e o ex-deputado Natalino Guimarães, condenado anteriormente por liderar a milícia Liga da Justiça na Zona Oeste do Rio.
O caso da família Bekerman faz parte do Procedimento de Investigação Criminal (PIC) instaurado pelo Gaeco. A Polícia Civil informou que o roubo do material de construção está sob investigação da 127ª DP (Búzios), mas que ainda não há registro formal de milícia na cidade.
A Prefeitura de Búzios, por meio da Secretaria de Urbanismo e Regularização Fundiária, disse que a cidade possui áreas historicamente ocupadas de forma irregular e que já foram emitidos cerca de 100 títulos de posse, com previsão de mais 600. A pasta informou que vai apurar os registros dos 93 lotes da família Bekerman e pede que irregularidades sejam denunciadas.
