Morre aos 95 anos o jornalista Zuenir Ventura, autor de Cidade Partida e que adotou o menino testemunha do assassinato de Chico Mendes

Por Vitor Lobo - Rio Janeiro

Publicado há 59 minutos ago

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O jornalista Zuenir Ventura morreu aos 95 anos nesta terça-feira (22). Durante mais de seis décadas de atuação no jornalismo, ele construiu uma obra marcada pela cobertura de episódios políticos e temas sociais relevantes do país, e viveu uma história pessoal pouco conhecida: adotou o menino que era a principal testemunha do assassinato do ambientalista Chico Mendes.

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“Morreu esta manhã, em casa, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia, o jornalista e Acadêmico Zuenir Ventura. Seu corpo será velado amanhã na Academia Brasileira de Letras e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista”, comunicou em nota a Academia Brasileira de Letras (ABL). Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.

A nora de Zuenir, Ana Roditi, disse que o jornalista morreu dormindo, sem dor e sem sofrimento. Segundo ela, o corpo estava muito fraco, mas ele ainda reconhecia a família e os amigos próximos, conversava e fazia comentários divertidos sobre o próprio envelhecimento.

Imortal da Academia Brasileira de Letras, Zuenir era o sétimo ocupante da Cadeira nº 32, eleito em 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna.

Natural de Além Paraíba, interior de Minas Gerais, Zuenir Ventura foi pintor de parede, office-boy, jogador de basquete, arquivista, professor universitário e jornalista. Teve como professores grandes literatos, como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. A proximidade com alguns de seus mestres abriu portas para o início da carreira: Celso Cunha, professor da Faculdade de Jornalismo, convidou-o para dar aulas de português, enquanto Hélcio Martins o indicou para um emprego no arquivo da “Tribuna da Imprensa”, onde começou a dar os primeiros passos na profissão.

Em 1988, Zuenir lançou o livro “1968 – o ano que não terminou”, obra que serviu de inspiração para a minissérie “Os anos rebeldes”, da TV Globo. O capítulo “Um herói solitário” ainda inspirou o filme “O homem que disse não”, produzido pelo cineasta Olivier Horn para a televisão francesa.

No início de 1989, Zuenir foi ao Acre como repórter especial para investigar o assassinato de Chico Mendes. Da cobertura surgiu uma série de reportagens premiada e uma história pessoal que ele costumava citar como uma das heranças mais marcantes daquela experiência: o jornalista acabou assumindo a tutela de Genésio, então principal testemunha do caso. O menino, de 13 anos, permanecia sob proteção policial, mas continuava ameaçado pelos responsáveis pelo crime — segundo Zuenir, havia um plano para matá-lo. Após conversar com um coronel e buscar uma solução para garantir sua segurança, ele levou o garoto para viver com sua própria família. “Um dia, cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos. Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos”, relembrou o jornalista em entrevista.

Publicado em 1994, “Cidade Partida” tornou-se uma das obras mais marcantes de Zuenir Ventura. Vencedor do Prêmio Jabuti, o livro examina a violência, a desigualdade e a profunda divisão social do Rio de Janeiro a partir da experiência do jornalista em Vigário Geral, cenário da chacina que matou 21 pessoas em 1993.

Zuenir venceu os dois maiores prêmios de jornalismo do Brasil, o Esso e o Vladimir Herzog, e em 2008 recebeu da ONU um troféu especial por ter sido um dos cinco jornalistas que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos. A convite de João Moreira Salles, ele ainda ampliou sua atuação para o audiovisual, participando da codireção de “Um Dia Qualquer” (2000) e assinando o roteiro do documentário “Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje” (2003).

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O jornalismo brasileiro perde um de seus maiores nomes, mas deixa como legado uma obra que segue sendo referência para entender o país.

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