Gravações e mensagens obtidas pela Polícia Federal na Operação Unha e Carne mostram o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) comandando diretamente a distribuição de cargos na Secretaria Estadual de Educação e negociando vagas com o traficante Arídio Machado da Silva Júnior, conhecido como “Júnior do Beco”. Rangel está preso há 13 dias, acusado de chefiar um esquema de fraudes e desvios de recursos da educação.
Em um dos áudios, o deputado ordena à então diretora regional de Educação do Noroeste Fluminense, Júcia Gomes de Souza Figueiredo: “Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Eu não tenho que dar satisfação a ninguém. O deputado sou eu. A indicação é minha e quem manda sou eu.” A mensagem teria sido enviada em agosto de 2024 e foi extraída do celular de Júcia, também presa na operação. Ela respondia pela Regional Noroeste da Seeduc, que abrange 57 escolas estaduais em 13 municípios e conta com mais de 3.200 servidores.
A PF descreve Júcia como “longa manus” do parlamentar dentro do órgão público, com função considerada “vital” para o funcionamento do esquema.
Em outubro de 2024, Júcia encaminhou a Rangel um comprovante de transferência de R$ 100 mil da empresa VAR Construtora para uma casa de festas. Na sequência, enviou mensagens dizendo: “Já mandei 100” e “amanhã vai o resto.” Para os investigadores, a movimentação reforça suspeitas de lavagem de dinheiro. A VAR Construtora, apontada como envolvida em obras em escolas estaduais, não possuía funcionários registrados na RAIS.
Outras mensagens analisadas pela PF buscam demonstrar a relação de Rangel com “Júnior do Beco”, descrito pela corporação como traficante de alta periculosidade com antecedentes por homicídio e tráfico. Segundo a investigação, o deputado reservou vagas de auxiliar de serviços gerais na Educação para indicações do criminoso. Em um dos áudios, uma mulher identificada como irmã do traficante cobra a nomeação prometida: “Thiago Rangel, aqui é Gleice, irmã de Juninho do Beco. Meu irmão pediu para eu te ligar para ver o que estava acontecendo.”
Em outro trecho, o deputado orienta como organizar os nomes indicados: “Você faz dois bloquinhos, prende um papelzinho escrito Junior do Beco e bota um clip juntando os dois.”
A investigação também revelou uma planilha encontrada no computador do ex-chefe de gabinete do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. O documento listava deputados e os órgãos sob influência de cada um. No caso de Rangel, constavam o Detran de Campos, o IPEM de Campos e 15 vagas na própria Alerj. A PF afirma que ele teria usado sua influência sobre o IPEM em benefício de sua rede de postos de combustíveis, com indícios de corrupção envolvendo fiscais do órgão.
A prisão preventiva de Rangel foi decretada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que apontou risco à ordem pública e continuidade das atividades criminosas. A Alerj afastou o parlamentar e exonerou seus 40 assessores e a chefe de gabinete.
A defesa de Rangel afirmou que as mensagens foram retiradas de contexto e negou qualquer envolvimento com organização criminosa. A Secretaria Estadual de Educação informou estar realizando revisão administrativa dos procedimentos relacionados a obras de manutenção nas escolas.
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