A prisão do professor L. C. dos Santos, da rede municipal de ensino de Armação dos Búzios, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, trouxe à tona não apenas um caso de denúncia de violência sexual em ambiente escolar, como também uma crescente controvérsia sobre a condução da investigação e a consistência das acusações. O educador foi detido na quarta-feira (2), por agentes da 127ª Delegacia de Polícia (DP), sob a acusação de estuprar quatro crianças menores de 7 anos dentro da unidade de ensino onde trabalhava.
A prisão ocorreu mediante mandado de prisão temporária, expedido pela Justiça após o recebimento de denúncias feitas por mães de alunos. O crime imputado é o de estupro de vulnerável, previsto no artigo 217-A do Código Penal, cuja pena varia de 8 a 15 anos de reclusão. De acordo com a delegada titular da 127ª DP, Flávia Monteiro, os relatos partiram de quatro famílias distintas, e as investigações estariam sendo conduzidas com prioridade diante da gravidade das acusações
No entanto, a defesa do professor contesta elementos centrais da narrativa policial. Em vídeo publicado nas redes sociais nesta segunda-feira (7), o advogado Carlos Vinícius afirmou que apresentará provas ao processo que, segundo ele, indicam que o professor pode estar sendo vítima de uma falsa acusação construída sobre contradições e fatos Ndesconectados da realidade escolar.
Defesa aponta três núcleos familiares e detalha histórico de frequência e inconsistências
Um dos pontos centrais da manifestação da defesa é a afirmação de que, ao contrário do que declarou a delegada responsável em entrevista a uma rádio local, as denúncias não vieram de quatro famílias, mas de três. Isso porque uma das mães é responsável por dois filhos gêmeos, considerados individualmente no inquérito, mas que compõem o mesmo núcleo familiar.
A denúncia nº 1, segundo a defesa, partiu de uma mãe que já havia anteriormente acusado um aluno da escola de ter abusado de seu filho — fato que está documentado e que, para o advogado, deveria ter sido considerado como um elemento relevante de análise da conduta da denunciante. A defesa argumenta que o histórico de denúncias da mesma mãe sugere a necessidade de investigação mais cautelosa antes da decretação da prisão.
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A segunda denúncia envolveu uma criança com baixa frequência escolar. Registros da Secretaria Municipal de Educação apontam que o aluno esteve presente na unidade apenas oito vezes entre fevereiro e junho de 2025. Desses oito encontros, apenas dois coincidiram com a presença do professor acusado, e em um deles, o contato foi inferior a duas horas. A criança, inclusive, está registrada como evadida da escola. A defesa argumenta que, com base nesses dados, não há tempo ou condição de convivência suficiente entre a criança e o professor que justifique uma acusação tão grave.
Já a terceira denúncia, considerada dupla, foi feita por uma mãe estrangeira de dois filhos gêmeos. Conforme consta no vídeo da defesa, essa mãe não apresentou provas materiais junto à denúncia, como laudos, testemunhas ou registros formais. A defesa ainda destaca que os filhos não relataram qualquer ocorrência a professores ou funcionários da escola ao longo do ano letivo, e que não houve qualquer anotação disciplinar, administrativa ou funcional relacionada ao professor até o dia da prisão.
Discrepâncias na versão policial e reações da comunidade
Outro ponto amplamente contestado pela defesa é a declaração da Polícia Civil de que o professor estaria foragido. Segundo nota da 127ª DP, a prisão foi resultado de “trabalho de inteligência para localizá-lo”. A defesa, no entanto, afirma que o mandado foi cumprido no endereço oficial e fixo do professor, onde ele reside há anos e mantém registro em órgãos oficiais. Informações extraoficiais indicam que a abordagem policial foi tranquila, sem resistência e na presença dos pais do educador, o que contradiz a narrativa inicial divulgada pela delegacia.
A repercussão do caso se espalhou rapidamente entre professores da rede municipal e estadual, com grande mobilização de apoio ao docente. Diversos colegas de profissão relataram à defesa estarem dispostos a depor em favor do professor, com base em sua trajetória profissional, conduta ética e histórico de respeito dentro do ambiente escolar.
A prisão gerou revolta na classe de professores da Região dos Lagos, que passaram a questionar a fragilidade dos critérios adotados para prisões preventivas ou temporárias em casos de grande comoção social, sem a devida verificação prévia das circunstâncias e histórico das partes envolvidas.
“Sabemos das dificuldades da rotina escolar, lidamos com múltiplas realidades e com vulnerabilidades. Uma denúncia mal conduzida pode destruir carreiras e vidas inteiras”, afirmou um professor da rede municipal de Búzios que pediu anonimato.
A Secretaria Municipal de Educação ainda não se pronunciou sobre o caso, e a Polícia Civil não respondeu aos questionamentos levantados pela defesa até o momento da publicação desta matéria. Os documentos anunciados pela defesa devem ser protocolados nos próximos dias, e a expectativa é de que a Justiça reavalie a manutenção da prisão diante das novas informações.
